Ao terminarem de ler esse texto me acharão um louco, de certo que seja verdade, outros sim, talvez eu me entendesse e não agisse com tantas coisas anormais já que a loucura é antônima de sanidade e são… é que definitivamente não sou.
Começo a destilar essas loucuras exatamente sobre os verbos ‘ser’ e ‘estar’, pois toda vez que uso um deles sofro porque não sei se sou ou estou. Sorte tem os americanos com sua língua tão simples que não diferenciam o ser do estar e cujos símbolos e fonemas são apenas To Be, daí resta à quem ouve e lê designar seu significado.
Não obstante essas pequenas coisas da língua, sofro a dualidade de dois mundos tão opostos entre si que penso aqui residir a causa mor de minha loucura.
Um deles outrora me satisfazia e me protegia e de tão convicto que era e daquilo que tinha eu me sentia, o outro mundo nem curiosidade me fazia. Eu era inocente, mas jamais ignorante, sabia o que havia do outro lado e não nego que algumas coisas passavam tão perto de mim que podia até sentir o cheiro, e ele me dava náuseas.
Outro assunto que preciso explanar para que a minha loucura seja entendida (que paradoxo) é a proteção. Deveras que seja necessária, mas será que demais causa danos?
Essa pergunta da modernidade e que desde a antiguidade já sofriam, pouco importa nesse contexto. O fato é que eu preferia sim ser protegido em demasia e isso indica claramente que eu fui mal acustumado.
Não ouse ainda me julgar infantil, pois esse de todos adjetivos é o que mais me revolta.
Permita-me voltar ao assunto… Em um dos mundos de minha dualidade, eu estava totalmente protegido e isso me deixava tão certo do que eu era/estava que por vezes eu mal lembrava do Cosmo, embora, como já dito, pudesse sentir o cheiro, o problema é que cheiros se sentem mas não se vêem, um cheiro qualquer o vento passageiro traz e quando você se pergunta “de onde?”
Nem o sente mais.
Protegido, inocente, mas não ignorante. Eu o era… Eu estava.
Belo dia de minha caminhada não sei quando, jogaram uma pedra em minha muralha de proteção e a vi cair, bem verdade que há algum tempo notara rachaduras mas pareciam tão firmes, hoje sei que as pequenas rachaduras foram brechas para grandes crateras.
O meu mundo sem muralhas me permitia não apenas sentir o cheiro do mundo vizinho, mas também visualizar todo seu horizonte. O cheiro ainda me dava nojo.
Se o cheiro incomodava a paisagem agradava.
Esqueci-me de contar, mas no Reino eu sou Monarca. (ficou fácil entender o porque da proteção???)
Eu olhava o horizonte e o Cosmo parecia mui belo, embora eu soubesse que era totalmente falido, que fosse apenas aparência, mas uma boa aparência.
Eu olhava o meu mundo e via as muralhas caídas enquanto os habitantes do Cosmo tinham grandes fachadas.
Eu olhava os habitantes do Reino e via monarcas com problemas maiores que os meus, e os habitantes do Cosmo festejavam dançando semi-nus.
Aquele cheiro ficava mais forte sem as minhas muralhas e eu fingia que estava tudo bem, nesse ínterim um habitante do Cosmo visitou o Palácio. Como sempre, o tratamos muito bem, afinal trazer habitantes do Cosmo para o Reino é o motivo de nosso maior júbilo. Ele entrava, ceiava conosco e depois se ia, mas sempre voltava e junto com ele aquele cheiro.
Admito que sem as minhas muralhas eu mesmo fui dar uma volta no Cosmo, achando-me protegido pela força de minhas convicções, mas aquele cheiro no mundo não era um mero vento e sim uma fonte consistente que impregnou-se em mim…
Erroneamente achei que voltar correndo pro Palácio me poria em seguro.
Segui com a rotina no Reino e tive o simples serviço de integrar o novo habitante com o restante do Palácio. Ele tinha aquele cheiro em suas roupas e isso no ínicio me incomodava, com o tempo passei a querer lembrar daquele cheiro e estar na compania de quem o tinha era a melhor forma.
Ledo engano!
Fomos juntos no Cosmo e cheiramos aquele aroma.
Pouco a pouco não consegui mais exercer minhas atividades monárquicas, meu serviço não rendia, minhas decisões eram equivocadas e vi que para o bom andamento do Reino eu devia abdicar.
Passei a ser um sem noção no Palácio.
Hoje minhas ruínas continuam no chão e eu praticamente moro no Cosmo, pois almoço, janto e durmo lá, apenas vou ao Palácio ver e ser visto.
O cheiro agora me é próprio e exala por mim.
E o meu dilema é exatamente esse…
Mudar-me oficialmente pro Cosmo ou trancar-me em uma masmorra de marfim enquanto minhas muralhas são restauradas.
Equivocadamente quanto mais conheço o Cosmo, mais sei que me faz mal.
Equivocadamente quando mais conheço o Cosmo vejo que ele é exatamente como me descreveram no Reino.
Equivocadamente quanto mais me envolvo com os Cosmopolitas mais percebo que não sou igual a eles, embora seja bem pior que muitos deles.
Equivocadamente os Cosmopolitas preferem um monarca a um plebeu.
Equivocadamente …
Louco que sou
Trago do Cosmo não só o cheiro , mas também toda ignomínia.
Ser ou estar?
Eu estou no Cosmo mas Sou do Reino.
Louca dualidade da minha vida:
O Cosmo e o Reino